quarta-feira, 24 de maio de 2017

Comodidade do amigo de foda!


As amizades coloridas podem dar origem aos relacionamentos mais duradouros. No clássico de Hollywood, Harry disse para Sally que uma mulher e um homem nunca poderiam ser só amigos porque sempre haveria uma tensão sexual no meio para estragar.

Mais interessante que encontrar a resposta da premissa é o questionamento à pergunta. Sim, duas pessoas, uma se sentindo atraída pelo gênero da outra, podem ser só amigos, sem tesão, mas se houver um pinguinho desse interesse sexual, e se eles levarem esse interesse a cabo, porque isso estragaria a amizade?

A partir desse ponto eu poderia escrever dois textos: um sobre como o sexo entre amigos pode não envolver sentimentalismo nenhum, e outro sobre como, quando essas amizades terminam em romance, se revelam o melhor tipo de amor. Escolhi abordar o segundo.

Parece aterrorizante misturar duas coisas, sexo e amizade. No famoso amor de pica  (que também pode ser se xana ou de dedo) o temor é que, depois de vários encontros bem sucedidos e de conversas profundas, com a intimidade, a coisa perca a magia. Porém, muito mais assustadora que esta opção, é descobrir que se pode ter um sexo casual incrível com um grande amigo - um daqueles que te fazem rir todas as sextas-feiras e que te salva dos piores momentos possíveis - porque não se  quer arriscar perder, ou complicar a relação que se tem ao colocar o sexo no meio.

Nós somos seres infectados por hollywood e pelas novelas das oito, hesitamos em nos entregar às situações mais descomplicadas simplesmente por não saber o que vem depois e como aquilo deveria terminar. No entanto, se pisamos atrás com estes casos, não conseguimos nos prevenir das paixões mais arrebatadoras, porque essas, de tão brilhantes, ofuscam a vista e os buracos da estrada que vem pela frente.

Nos parece que o amor romântico é mais bonito. Claro, porque é preciso desejar como quem não tem olhos para o resto do mundo, há de se fazer o que for, infringir leis de aeroportos, correr na chuva, para conquistar o tal amado, já que aquela é a pessoa certa, e sem ela não se pode viver, porque o amor verdadeiro é único. Em proporções diferentes, homens e mulheres compram essa ilusão e perdem relacionamentos só por ficar a espera dela.

Já aquela simples saída com um amigo, sexo casual, hamburger, havaianas, é constantemente desvalorizada -não só porque apresenta o risco de perder a amizade - mas principalmente porque não é tão atraente, afinal, é, sobretudo, uma comodidade. Não tem paixão em quase todos os seus sentidos: não tem sofrimento, nem ciúme, nem aquele desespero de garantir o reencontro. No máximo tem vontade, e fogo.

Fogo sim, porque com um amigo de foda, o sexo sempre é bom, claro, ele é o colorido, o mote da coisa e, sem ele, é só amizade. Além disso, independente do que veio primeiro, o sexo ou a amizade, estando os dois fora do contexto romântico, se idealiza menos. Não é preciso se preocupar tanto com manter uma imagem apreciável - pode andar de camiseta esgarçada, lamber o dedo comendo costela, soltar um pum sem passar a semana se desculpando pelo escape - tudo é reconfortante. Sem a pressão de ser o ultimate modelo de partidão da porra, é possível ser a si mesmo e esse eu verdadeiro resulta mais interessante.

Sabe-se que a outra pessoa não é imaculada e indefectiva, e talvez por saber que ele é um tanto acomodado e que ela tem uma constante necessidade de alimentar seu ego, eles nem pensaram em ser um casal, num primeiro momento. “Não daria certo”. Quando se descobrem inseparáveis, todas as desvantagens estiveram ali, às claras o tempo todo, se mostram pequenas diante da recompensa.

De uma sequência de encontros, fodas e conversas espera-se, apenas, companhia. A falta do compromisso, a cara efêmera desse modelo de relação, impede que um deposite a responsabilidade da sua felicidade e completude na mão do outro; evita também que um esteja com o outro por obrigação, por promessa, por lei do manual de compromisso e expectativas; e nem ao menos demanda exclusividade. Quando o amor se manifesta, ele não foi demanda, foi oferta.

Harry e Sally contam que, na terceira vez que se encontraram, eles ficaram amigos, e ficaram por muito tempo, até que não eram mais, e então se apaixonaram.

Se Harry quis dizer que deixaram de ser amigos porque se apaixonaram, é provável que os dois não tenham durado muito tempo juntos depois dos créditos.

Faço votos que ele estivesse se referindo a outra coisa, porque a ideia de que a amizade é oposta ao romance só funciona, assim como nos filmes, por um par de horas, até que as luzes se acendam.

Fonte: Papo de Homem
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