Os Tapajós na visão de Frei Laureano de la Cruz
Santarém - Frei Laureano Montesdoca de la Cruz era frade franciscano, que em 1647 se tornou missionário dos índios Omáguas. Em 1650, no entanto, enfrentando alguns problemas em seu trabalho missionário, decidiu descer o rio Amazonas buscando caminho para a província de Caracas. De sua viagem surgiu a obra “Novo descobrimento do rio de Marañón, chamado das Amazonas”. Em sua descida pelo rio encontrou sinais da presença dos portugueses junto à ilha dos Tupinambaranas. Estavam ali caçando índios que seriam reduzidos à escravidão.
Perto do estreito de Óbidos, junto à foz do Trombetas, encontrou os índios condurises, sabendo na ocasião que a tropa portuguesa estaria estacionada junto aos tapajós, para lá desceram Frei Laureano e seus companheiros frades. Na verdade, encontraram os portugueses na outra banda, oposta ao rio que entrava ao sul, ou seja, em Monte Alegre. Ficaram alguns dias aí estacionados e chegaram a entrar no rio Tapajós e a testemunhar o modo como eram feitos os resgastes de índios. De seu relato, podemos extrair informações que muito nos ajudam a compreender como os tapajós estavam vivendo às vésperas da fundação da missão dos jesuítas:
“Nessa época foi oficiado ao capitão Manoel de los Santos, cabo da dita tropa, para que fosse a dois dias de caminho desse sítio assentar as pazes entre os Trapajosos e outros índios seus vizinhos, as quais já se haviam começado a fazer.
Ofereci-me a acompanha-lo e ele o estimou muito, e deixando ali um capitão e parte de sua gente, fomos com os mais briosos fazer essa viagem.
Levei como meu companheiro o irmão frei Francisco Gonzaléz e deixei ali o Padre frei Juan de Quincoses com os rapazes.
Chegamos a tomar porto numa praia muito grande, perto do lugar onde os índios estavam assentados e ali saíram a nos receber e nos trouxeram do que comer e assentaram-se as pazes, embora mal, porque aqueles homens (os portugueses) não procuravam outra coisa senão o seu proveito temporal.
Feitas tais pazes, trataram logo de resgatar cativos, que chamam assim os que os índios cativam em suas guerrilhas, que sendo injustas, também o são os cativeiros.
As razões com que os portugueses procuram encobrir a sua iniquidade são dizendo que os índios que eles vão resgatar já os tem os seus amos sentenciados à morte para comê-los e que fazem a obra bondosa ao livrá-los da dita morte e leva-los à terra dos cristãos, onde o serão, embora escravos”.
Continuando, o frade cronista fala também da astúcia dos portugueses que se aproveitam das guerras tribais (e até as incentivam) para que mais e mais resgates possam ser realizados. Foi assim que para subsistir, os tapajós tornaram-se caçadores e comerciantes de “peças” que eram trocadas por “três ferramentas, uma camisa, e duas facas, pouco mais ou menos”.
Por esse motivo, apesar de haver algumas fugas entre os índios resgatados, tristemente relata frei Laureano de la Cruz: “não há tropa das que saem a fazer cativos que não volte carregada de gente que vende como escravos”. Triste fim para um povo que no passado já foram os “senhores do Paraná-Pixuna”.
(*) É presbítero da Diocese de Santarém, membro da Academia de Letras e Artes de Santarém - ALAS e atual Presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós - IHGTap.
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