O manual do turista que ninguém aguenta
Por: Daniela Yuri Uchino
Ao saírem da rotina nas férias, as pessoas querem ser mais ainda quem realmente são de verdade. Sem os condicionamentos do trabalho que exigem o mais para performar e o menos para não irritar, elas ficam ali comedidas no dia a dia, tentando se manter na medida do bom senso. E então, ao viajarem... As vontades e a ocupação de espaços intensificam-se, leia-se, as pessoas sentem-se mais espaçosas fisicamente e no comportamento com o outro em sociedade. O turista livre de amarras quer diversão, adrenalina, ser bem mimado e atendido prontamente em suas vontades e gostos ou mesmo ser acolhido. Ele deseja ter boas memórias afetivas da sua viagem, em sua perspectiva de mundo à disposição, afinal, são as suas aguardadas férias.
O turista-mala é geralmente aquele que se acha bem enturmado e pensa que faz amizade fácil. Considera que agrada ou faz sucesso nas suas conversas que retém a atenção do outro, principalmente ao discursar suas histórias de vida e suas experiências. Até com suas piadas e suas músicas, algumas de composição própria. Como uma pessoa bem entrosada, se aproxima de um ou dois indivíduos desconhecidos ou até mesmo de um grupo e começa a participar ativamente como se já fosse um amigo. Ele vira o “entrosa”. Esse tipo é encontrado em toda e qualquer viagem, por isso as pessoas já associam rapidamente essa identificação a alguém e algumas se identificam como sendo o próprio. Esse reconhecimento de si mesmo vem com um riso nervoso ou envergonhado, seguido da reflexão que o atravessa na leitura das histórias com os “malas”. Onde esses turistas são mais comuns? Acredito que em excursões com pacotes de viagens ou de turismo para passeios você encontre mais de um nessa turma. O que muda é a intensidade, o peso mala que cada um carrega consigo.
Os tipos mais comuns são os “reclamadores” crônicos. Para eles, nada está bom o suficiente, eles pesam os fatos por exigirem que as coisas sejam feitas milimetricamente perfeitas, na máxima agilidade do humano e exatamente tudo do jeito deles, mesmo não sendo feito por eles. Os invasores de espaço físico querem a melhor localização em tudo: mesa do restaurante do hotel, cadeiras da piscina e da praia, van para transporte em passeios, e se for preciso dão uma leve empurrada nos pertences dos outros ou até trocam os lugares para se beneficiarem da posição apontada e desejada com os olhos: A escolhida. Esses comportamentos, infelizmente, diga-se de passagem, existem em estranhos e até dentro da própria família: “Lá vem as folgas de...foi sempre assim, desde que me lembro dessa pessoa por gente.” O contexto não muda o perfil universal desse tipo de comportamento, o que acontece é que poderá haver uma intensificação ou amenização, vulgarmente conhecido como “soltar a franga” ou “segurar a onda.”
O humor como espelho dos nossos piores hábitos
Essas situações são ao mesmo tempo desconfortáveis pelo abuso da paciência do outro; e engraçadas, depois que o evento passa e fica a lembrança daquela situação e com ela a sua história. Isso aconteceu com a minha primeira história em questão “Turista-mala” que deu origem ao livro. O que vem junto com estas narrativas é o riso pelo reconhecimento de si e do outro em situações já vivenciadas ou reconhecidas pelo leitor. Podemos nos ver nos personagens nas diversas fases da vida que as vinte histórias abordam sobre os “malas” na família, no trabalho, em viagens e no dia a dia. Penso que o humor traz uma leveza para lidar com as situações, mas o humor afiado e ácido carrega uma ironia e uma crítica social que cutuca os âmagos dos mais individualistas aos mais egoístas, podendo trazê-los para a reflexão e para a empatia com o outro. Por isso, a leitura se faz necessária.
As situações que as histórias expressam revelam tanto sobre espaços compartilhados no sentido concreto quanto no sentido de invasão de privacidade da vida alheia, mesquinhez ou pequenez de espírito que pode conter falta de noção ou excesso de individualismo, ou o egoísmo. Se existe uma etiqueta universal do turista que costuma ser ignorada por ser difícil respeitar o espaço do outro em viagens, penso ser uma dificuldade como protagonistas que somos em primeira pessoa, por vezes mimados e ansiosos. Acredito que exista o bom senso, o famoso liga o desconfiômetro que você não está agradando ou pior está irritando e por fim entra o “se manca, vai”.
Dessa forma, ora somos observadores ora protagonistas desses comportamentos “malas” em diversas situações na convivência com o outro. A escrita através do humor nos faz enxergar essa faceta do ser humano de forma convidativa a uma autocrítica que pode reverberar nas ações futuras para um conviver melhor, o que beneficia a vida de todos.
Como comportamentos desse tipo aparecem não somente em viagens que os evidenciam, mas a todo momento, assim como o desconforto social causado, concluo que estamos vivendo na “sociedade-mala” do século XXI. A vida social na contemporaneidade é cheia de desgastes, o que torna necessário um convite à auto-observação, a percepção de que a convivência exige consciência e limites para viver bem. Agora, a última reflexão para a pergunta importante que não quer calar: É possível viajar sem se tornar um “mala”? Existem gradações de “malas”, dos mais leves aos mais pesados e você já foi mala muitas vezes na vida em várias situações, por isso, não é possível escapar de ser um pouco “mala”. O que, afinal, faz jus ao título do meu livro: “Somos Todos malas – Histórias recheadas de humor com os chatos que você conhece bem.”
*Daniela Yuri Uchino é paulistana, graduada, mestra e doutora em Letras pela USP. Antes de aprender a escrever, já criava histórias, inventava brincadeiras e imaginava diálogos, inclinação criativa que, ao longo dos anos, foi direcionada para a escrita literária, retratando situações cotidianas de maneira bem-humorada e provocativa. É autora de “Somos Todos Malas” (2021) e “O Natal dos Malas” (2022), além de ter participado de antologias como “Nós – textos de autoria feminina” (2023) e “Contos para ler quando o amanhã chegar” (2025). Mãe de duas adolescentes, vive em São Paulo. Instagram: @danielayuriuchino | Site: www.danielayuriuchino.com.br.
Fonte: Karoline Lopes e Marcela Güther
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