Os Murdoch: a dinastia que dividiu o próprio sangue para não dividir o império
Como uma disputa bilionária por um fundo de família expôs, por dois anos, a guerra fria dentro de um dos impérios de mídia mais poderosos do planeta.
Poucas famílias concentram tanto poder — e tanta hostilidade mútua — quanto os Murdoch. Donos de veículos que moldam a opinião pública em três continentes, como Fox News, The Wall Street Journal e New York Post, eles passaram os últimos anos travando, nos bastidores, uma disputa que combina dinheiro, ideologia e um patriarca decidido a controlar o destino do próprio legado mesmo depois de morto. O resultado foi uma novela real que ultrapassou em drama qualquer roteiro de ficção.
O acordo bilionário que encerrou a guerra
Em setembro de 2025, depois de quase dois anos de litígio, a batalha pelo controle do fundo familiar chegou ao fim. O Murdoch Family Trust — mecanismo criado em 1999 para dividir o poder de voto entre os herdeiros — foi dissolvido, e um novo arranjo consolidou Lachlan Murdoch, o filho mais velho, como o único no comando de fato da News Corp e da Fox Corporation. Para isso, ele comprou as participações dos três irmãos que resistiam à mudança, encerrando de vez a disputa judicial.
O acordo não foi apenas uma transação financeira: foi a vitória de um projeto que Rupert Murdoch, hoje com 95 anos, vinha arquitetando desde 2023, quando pediu à Justiça para alterar os termos de um fundo que ele mesmo havia definido como "irrevogável".
A inspiração real por trás de "Succession"
Não é coincidência que boa parte da imprensa tenha comparado o caso à série "Succession", da HBO. A disputa dos Murdoch é amplamente reconhecida como uma das principais referências reais por trás da trama de Logan Roy e seus filhos brigando pelo controle da fictícia Waystar RoyCo. A vida imitou a arte — ou seria o contrário — a ponto de a Netflix produzir o documentário "Dynasty: The Murdochs", reunindo entrevistas com jornalistas que cobriram a família por décadas e trechos de comunicações privadas entre os parentes, reveladas justamente pelo processo judicial.
Irmãos contra irmãos: quem ficou com o quê
No centro do conflito estavam quatro dos filhos mais velhos de Rupert: Prudence MacLeod, Elisabeth Murdoch, Lachlan Murdoch e James Murdoch. O fundo original lhes garantia direitos de voto iguais — uma exigência feita por Anna Torv, ex-mulher de Rupert e mãe de Elisabeth, Lachlan e James, no momento do divórcio.
Só que, com o tempo, o grupo se dividiu ideologicamente. Lachlan manteve-se alinhado ao conservadorismo do pai e assumiu a presidência da Fox Corp e da News Corp. Já James, que chegou a doar para causas progressistas, deixou o conselho da News Corp em 2020 alegando divergências sobre a linha editorial dos veículos do grupo. Elisabeth e Prudence, mais moderadas, se somaram a James na resistência à tentativa do pai de concentrar o poder de voto nas mãos do irmão mais novo.
No desfecho, o acordo de 2025 criou um novo fundo que passou a incluir Lachlan e as duas irmãs mais novas, Grace e Chloe — filhas de Rupert com Wendi Deng Murdoch —, enquanto Prudence, Elisabeth e James se tornaram beneficiários de outro arranjo, afastados do comando direto do negócio.
O segredo escancarado: dois anos de sigilo judicial
Um dos capítulos mais reveladores dessa história é o tanto que ela ficou escondida do público. O processo tramitou no tribunal de Washoe County, em Reno, Nevada, sob sigilo quase absoluto: por mais de dois anos, o caso nem sequer aparecia no sistema público de documentos da Justiça local. Só depois de uma longa disputa por transparência, em meados de 2026, os arquivos do caso vieram à tona — expondo ao público o alcance real da guerra entre pai e filhos, e entre os próprios irmãos.
Poder editorial em jogo: quem controla a narrativa
Por trás da briga por ações e cadeiras no conselho, havia uma disputa ainda mais delicada: quem decidiria o posicionamento editorial de veículos como Fox News, New York Post e Wall Street Journal. Rupert deixou claro, em documentos do processo, que sua intenção era blindar o comando de Lachlan justamente para preservar a linha editorial conservadora dessas empresas — um objetivo que os outros três filhos, com posições políticas mais moderadas, ameaçavam colocar em risco caso mantivessem poder de voto equivalente.
Ou seja: não se tratava apenas de uma briga de herança. Era uma disputa por quem teria a caneta — e o microfone — para influenciar o debate público nos Estados Unidos e no mundo nos anos seguintes.
O que fica dessa história
A guerra dos Murdoch termina, por ora, com um vencedor claro: Lachlan, hoje o único no comando de um império que inclui centenas de ativos de mídia. Mas o preço foi alto — não em dinheiro, que a família tem de sobra, e sim em relações familiares que dificilmente serão reconstruídas. Prudence, Elisabeth e James saem bilionários, mas afastados do centro de poder que ajudaram a construir ao lado do pai.
Fica a pergunta que a própria imprensa especializada já havia levantado antes mesmo do acordo: mesmo resolvida a disputa em vida, o que acontece quando Rupert Murdoch, aos 95 anos, finalmente deixar de existir? A história dos Murdoch sugere que, nessa família, nenhuma paz é definitiva.
Fonte: Redação
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